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Mostrando postagens de Fevereiro, 2022

M'banda

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  M'banda é uma palavra do Kimbundu, uma língua Bantu, e com alguns significados, pode indicar um coletivo religioso, a/o líder desse coletivo, mas o de uso mais comum é : magia, a arte de curar. No Kimbundu quando as letras M e N precedem outra consoante, elas tem um som de vogais nasaladas, ou seja: em/en, im/ìn, um/un. A palavra M'banda pode ser lida como embanda, imbanda, umbanda ... Oscar Ribas, escritor e etnólogo Angolano, afirma que em Angola, " Umbanda " é um rito de cura, um tipo de medicina natural que envolve a intervenção de espíritos, é a ciência do Kimbanda ( sacerdote, curandeiro ). O historiador Wilson do Nascimento Barbosa, indica a palavra Nblanda para definir práticas religiosas Bantu no sudeste do país. Nblanda estaria muito além de um movimento religioso, seria uma filosofia espiritual mesclada a uma ideologia social na metade do século 19. Aqui M'banda tem exatamente este sentido, uma filosofia de vida que mescla espiritualidade, princípio

Kufwa

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  A essência da filosofia e espíritualidade Bantu era a energia vital, o vigor. Os rituais, as orações e a conexão com os Ancestrais e os espíritos da natureza eram o veículo para potencializar essa energia de vida. Eles acreditavam que essa potencialização energética em vida, garantia também uma potencialização no pós morte... Pensar na línha de Kalunga como um espelho, uma boa vida = uma boa morte... Para eles todo tipo de infortúnio era causado por influência de espíritos com a intenção de reduzir a energia vital que poderia vir através de aborrecimentos, perdas, brigas, doenças. Eu lembro muito de entidades de Umbanda falando " kufar ", " Kufou ", e nós usamos essas palavras como sinônimo de morte, aliás, queremos traduzir tudo de forma literal: kufwa = morte Mas as palavras são imbuidas de signos, conceitos que muitas vezes só fazem sentido para os povos originários dessas palavras, dessas linguagens. Kufwa não é a morte literal, é a subtração da energia vi

Eu não sou eu, eu sou nós...

 Cena de American Gods

Deuses não morrem...

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  Ouvi " que ninguém mais reza para a Deusa Ísis "... Bom, desde a década de 60/70 emergiram religiões, cultos e práticas chamadas de Neo Pagãs , são sistemas de re-imaginação, de reconstrução de religiosidade ancestral pré judaica/islâmica/cristã, que usaram e usam fatos históricos, já que a maioria dos povos ancestrais não deixaram, ou deixaram pouco material escrito. Existe um movimento religioso que surgiu nos EUA e hoje tem adeptos em vários países, chamado Kemetismo ( são várias ramificações ) que revivem a antiga religião egípcia que é sim espíritualidade africana. Kemetismo tem um interessante foco em seguir Maat ( a ordem divina ), são preocupados com o bem estar físico, espíritual ( alimentação, exercícios, meditação ) e sim rezam pra Isis, Rá , Bastet , etc. De novo a questão da legitimação, as religiões afro-diásporicas só ganharam forma por causa da oralidade dos nossos ancestrais, é fato que a religião dos Orixás, Voduns, Nkisi e outras, ainda são vivas na Áfr
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“A música é a língua materna de Deus. Aliás foi isso que nem católicos nem protestantes entenderam, que em África os deuses dançam. E todos cometeram o mesmo erro: proibiram os tambores. Na verdade, se não nos deixassem tocar os batuques, nós, os pretos, faríamos do corpo um tambor. Ou mais grave ainda, percutiríamos com os pés sobre a superfície da terra e assim abrir-se iriam brechas no mundo inteiro.” Mia Couto

Umbanda

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Este blog é sobre Umbanda ? Sim e não! Sim, no sentido da descrição de entrada do blog, M'banda no sentido original da palavra, uma filosofia de vida que une espíritualidade e conceitos de justiça social como um bem coletivo. Não, no sentido de religião formatada que nos últimos anos gerou mais conflitos do que bem estar coletivo. Este blog não é sobre religião. Na verdade vou escrever pouco ou nada sobre religião, mas preciso deixar alguns pontos registrados... A minha origem espiritual é Umbanda, tenho orgulho e muito apego emocional por isso. Quando lembro do passado, falo ou quando escrevo sobre esse passado, posso rever todo o cenário, sinto o cheiro do defumador, do cachimbo da Velha Catarina, ouço o som da sineta indicando que era hora de concentração para começar a gira, e lembro da seriedade a partir deste momento até o fim. Ainda posso sentir as águas geladas da cachoeira de Coroa Grande tocando meu corpo enquanto o Caboclo Lírio dava seu brado e mergulhava minha cabeça

A importância dos rituais

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  “Uma vida sagrada é uma vida ritualizada, isto é, que se baseia constantemente no reino do espiritual para lidar com os mínimos detalhes”  Malidoma Patrice Somé Magia e rituais deveriam deixar de ser entendidos como algo somente externo e aleatório. Deveriam ser entendidos como um auto cuidado intrínseco ao nosso dia a dia. Era assim que os povos ancestrais entendiam, aliás, eles entendiam que ataques e bloqueios energéticos comprometiam a saúde espíritual e física, por isso usavam magia para limpeza e equilíbrio energético . Claro que eles não tinham os termos técnicos que usamos hoje, mas eles sabiam exatamente o que estavam fazendo. Mesmo que o meio acadêmico rejeite ( e eu entendo porque não podemos fazer o trabalho de psicoterapeutas ) essas práticas como terapia, elas não não deixam de ser terapias complementares... Sempre bom lembrar também que essas práticas maravilhosas não substituem a medicina tradicional, em casos de saúde física é importante procurar um médico e usar

Espiritual X Religioso

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  Complexo falar sobre espiritualidade e religião, e é complexo porque envolve o ser humano, que é diverso. O primeiro ponto a se entender é que toda religião é uma criação humana e todas surgiram de outras, como por exemplo o cristianismo que surge do judaísmo, o protestantismo que surge do catolicismo ... Tanto é que as primeiras manifestações religiosas estão centradas nas forças naturais como divindades. Isso se transforma ao longo da evolução da espécie humana, os deuses ficam antropozoomórficos e na sequência antropomórficos ... Algumas dessas religiões são entendidas como ou se tornam tradicionais quando, num processo de repetição, se formalizam, aliás, todas as práticas sociais consideradas tradicionais seguem esse modelo de repetição e convenção ... Mas, tradicional está longe de ser uma lei imutável, verdade absoluta, um conceito ou uma prática fixos, pelo contrário, o tradicional também se remodela e isso acontece de acordo com as transformações sociais. Algumas práticas que

Itutu - O frescor, a gentileza Yorubá

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A cultura Yorubá é riquíssima em filosofia e conceitos que deveriam ser aplicados no dia a dia em nossas relações interpessoais. Este rosto feliz, esta aparência serena e amigável da moça na foto, é chamada pelos yorubás de itutu . Historiadores usam o termo para se referir a aparência dos rostos na estética da arte yorubá que na maioria das vezes estão com a expressão amigável, como se estivessem começando um sorriso. Não sou especialista em língua yorubá, mas itutu é o frescor nas relações, um comportamento pacífico, controlado e me arrisco em afirmar que itutu é o mesmo que gentileza. Itutu está relacionado a prática de cuidados com Ori e ao Orixá Oxum , quando usamos água fresca - Omi Tutu - para acalmar e abençoar nossas cabeças... Itutu é um dos conceitos que aplico no meu dia a dia Bora internalizar e praticar itutu diariamente!? Afinal, gentileza gera gentileza! Proibida a reprodução total ou parcial, sem autorização. Lei nº 9610/98

Bakisi

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  " Espíritos da natureza, os Bakisi, compartilham uma privilegiada dimensão cosmológica com o criador supremo, Nzambi Mpungu, e são considerados indispensáveis ​​para a sobrevivência, crescimento e harmonia.  Embora referido pelo nome como espíritos da terra, estão associados à totalidade do domínio ou território de sua ocupante e, portanto, com todos os tipos de habitat, terrestre e aquático e com diversos fenômenos naturais " Hagenbucher-Sacripanti

Simbi

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Os Bantu são subgrupos que apesar de terem em comum a origem linguística, culturas muito próximas, não têm consenso na mitologia, ou seja, alguns mitos pertencem a alguns povos e a outros não, as vezes o mito é parecido mas os nomes de espiritos são diferentes. A crença espiritual/religiosa e muito parecida em quase todos os grupos Bantu: - Deus Supremo - Espíritos da Natureza ( que também são entendidos como os ancestrais primordiais ) - Ancestrais  Entre os Kongo, existe uma classe de espíritos chamada Simbi, seres que habitam as águas. Também encontrei a palavra Bsimbi para esses seres... Também são conhecidos por outros povos da África Central e não existe uma concordância, para alguns são seres aquáticos, para outros são terrestres e são vistos como seres da natureza mesmo, tipo ninfas, driades... Em alguns mitos, os Simbi sustentam a água de Kalunga que é como um espelho que reflete os mundos, os Bantu acreditavam que o mundo dos vivos é igual ao mundo dos mortos, tipo " q

Arte Plumária Bantu-Ameríndia

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  Nkisi - Século 19 - Reino do Congo - Loango " Cabocla seu penacho é verde Seu penacho é verde É da cor do mar É a cor da cabocla Jurema " A Arte Plumária é uma característica da maioria dos povos indígenas do mundo e é muito mais que elementos decorativos, é a identidade desses povos, através dela é possível saber qual a cultura de cada um deles, por exemplo. O que chamamos de arte, para eles é de uso habitual e principalmente ritualístico/religioso que também define posições sociais, sacerdotais, etc.   A Arte Plumária indígena é acima de tudo o elo desses povos com a natureza. Na época da colonização muitos desses elementos considerados decorativos foram perdidos para os europeus, como o manto Tupinambá do século 16 que está em um museu da Bélgica.  Hoje vários povos indígenas comercializam sua Arte Plumária como uma forma de gerar renda, infelizmente nem todos que compram é por apreciação cultural, sim para revenda com valores altíssimos e que não são repassados para os