M'banda

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  M'banda é uma palavra do Kimbundu, uma língua Bantu, e com alguns significados, pode indicar um coletivo religioso, a/o líder desse coletivo, mas o de uso mais comum é : magia, a arte de curar. No Kimbundu quando as letras M e N precedem outra consoante, elas tem um som de vogais nasaladas, ou seja: em/en, im/ìn, um/un. A palavra M'banda pode ser lida como embanda, imbanda, umbanda ... Oscar Ribas, escritor e etnólogo Angolano, afirma que em Angola, " Umbanda " é um rito de cura, um tipo de medicina natural que envolve a intervenção de espíritos, é a ciência do Kimbanda ( sacerdote, curandeiro ). O historiador Wilson do Nascimento Barbosa, indica a palavra Nblanda para definir práticas religiosas Bantu no sudeste do país. Nblanda estaria muito além de um movimento religioso, seria uma filosofia espiritual mesclada a uma ideologia social na metade do século 19. Aqui M'banda tem exatamente este sentido, uma filosofia de vida que mescla espiritualidade, princípio

Umbanda




Este blog é sobre Umbanda?
Sim e não!

Sim, no sentido da descrição de entrada do blog, M'banda no sentido original da palavra, uma filosofia de vida que une espíritualidade e conceitos de justiça social como um bem coletivo.

Não, no sentido de religião formatada que nos últimos anos gerou mais conflitos do que bem estar coletivo. Este blog não é sobre religião. Na verdade vou escrever pouco ou nada sobre religião, mas preciso deixar alguns pontos registrados...

A minha origem espiritual é Umbanda, tenho orgulho e muito apego emocional por isso.

Quando lembro do passado, falo ou quando escrevo sobre esse passado, posso rever todo o cenário, sinto o cheiro do defumador, do cachimbo da Velha Catarina, ouço o som da sineta indicando que era hora de concentração para começar a gira, e lembro da seriedade a partir deste momento até o fim. Ainda posso sentir as águas geladas da cachoeira de Coroa Grande tocando meu corpo enquanto o Caboclo Lírio dava seu brado e mergulhava minha cabeça me consagrando às Forças da Natureza, ouço o brado de Serra Negra, Caboclo da minha vó, hoje com 93 anos. Ainda vejo o Caboclo Guerreiro do meu Pai Carlinhos dançando com sua lança, vejo as filas formadas por pessoas em busca de soluções para seus problemas do dia a dia. Chegavam com um semblante triste e saiam com semblante de esperança. Lembro das minhas tardes ouvindo a Rádio Metropolitana, ouço a voz de José Beniste, lembro dos intervalos do programa dele tocando músicas do Tincoãs ( lá embaixo no player, músicas que alimentam a alma ). E mais recentemente, lembro do meu juramento diante das Forças da Natureza e do Caboclo Cobra Coral...

Essa Umbanda que era um bálsamo para o povo, que servia como um local de acolhimento para soluções e que, inclusive, faz ponte direta com os valores e espiritualidade Bantu. Essa Umbanda de que existem registros desde a metade do século 19, essa Umbanda que a todo momento é invisibilizada, deslegimitada tanto por grupos embranquecedores quanto por grupos tradicionalistas que a distanciam de sua ancestralidade africana, de seus elementos indígenas por razões muito óbvias... A Umbanda não precisa do aval de nada nem do aval de ninguém pra existir. Quem acha que ela não tem força é porque realmente não experimentou suas maravilhas como eu contei nas minhas lembranças, talvez nunca esteve dentro e por isso saiu...

Foi essa Umbanda que me formou, não só espiritualmente, mas formou meus valores, dos quais não abro mão.

Essa é a Umbanda certa?
Bom, primeiro preciso responder fazendo outra pergunta: existe isso !?

Não, não é a única e nem a certa, mas é nela que eu acredito e protejo sua memória.

Nem eu faço mais Umbanda como antigamente, o mundo mudou, a sociedade mudou, é fato que tudo muda de acordo com as mudanças sociais, mas ainda existe a ética, o bom senso e principalmente o valor ancestral, que é base de todas as religiões africanas, indígenas e afro diaspóricas no mundo.

Aliás, sempre bom lembrar que vivemos num país com extensão considerada continental, e nele se formaram muitas religiões afro-diaspóricas, ritos chamados de Umbanda no Nordeste são diferentes de ritos com o mesmo nome no Sudeste, sem contar o processo de Umbandização de ritos mais antigos ou releituras religiosas que usam Umbanda como um termo guarda-chuva para maior entendimento e aceitação social... Não dá pra tentar medir todas as religiões afro pela régua Umbanda X Candomblé...

Em outros países de diáspora africana, inclusive existem ritos - Komfa, Winti - muito parecidos com a Umbanda, que não são chamados assim...

Com as mudanças sociais, outros cenários se formam e muitas vezes alimentam situações desagradáveis, desde a banalização, as narrativas de posse e a desonra aos que vieram antes, aqueles que possívelmente também erraram e tinham defeitos, mas também enfrentaram as injustiças sociais, os preconceitos, as perseguições das polícias, estão esquecidos, substituídos pela Umbanda midiática que disputa território e está longe de se comprometer com as demandas de existência de seu povo.

Sempre recebo mensagens pedindo orientação sobre como dar continuidade à vida espiritual, minha resposta é sempre a mesma: não pratique religião, pratique espiritualidade, religiões são criações humanas e incluem suas qualidades e defeitos, espiritualidade é intrínseca à natureza, faz parte de tudo e de todos, mesmo dos não religiosos.

Então não, esse blog não é sobre Umbanda, é sobre M'banda.

Como disse um irmão:

" Não precisamos brigar pelo o que não nos representa...
E vivamos a M'banda por nós... "


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