M'banda

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  M'banda é uma palavra do Kimbundu, uma língua Bantu, e com alguns significados, pode indicar um coletivo religioso, a/o líder desse coletivo, mas o de uso mais comum é : magia, a arte de curar. No Kimbundu quando as letras M e N precedem outra consoante, elas tem um som de vogais nasaladas, ou seja: em/en, im/ìn, um/un. A palavra M'banda pode ser lida como embanda, imbanda, umbanda ... Oscar Ribas, escritor e etnólogo Angolano, afirma que em Angola, " Umbanda " é um rito de cura, um tipo de medicina natural que envolve a intervenção de espíritos, é a ciência do Kimbanda ( sacerdote, curandeiro ). O historiador Wilson do Nascimento Barbosa, indica a palavra Nblanda para definir práticas religiosas Bantu no sudeste do país. Nblanda estaria muito além de um movimento religioso, seria uma filosofia espiritual mesclada a uma ideologia social na metade do século 19. Aqui M'banda tem exatamente este sentido, uma filosofia de vida que mescla espiritualidade, princípio

A Encruzilhada...

 



A cada dia eu entendo que focar num ponto de pesquisa e se fechar, não gera, não movimenta conhecimento, pelo contrário, engessa.


Eu vivo numa verdadeira encruzilhada desde que voltei a me envolver com o meio afro religioso, parte de mim é nostálgica e apegada aos ritos antigos, aos meus mais velhos. Outra parte não pode e nem deve fechar os olhos para todas as transformações sociais que refletem inclusive nas religiões, nas espiritualidades.


Dia desses conversava com um amigo sobre estrutura de terreiro, eu não tinha até ontem uma estrutura pra que hoje eu formasse uma comunidade religiosa, exatamente por causa da encruzilhada que eu vivo, mas a partir de ontem, entendi que essa encruzilhada não precisa me perturbar, ela é na verdade o caminho. Então hoje se eu montasse meu terreiro, manteria os ritos internos antigos, o legado dos meus ancestrais para que os meus mais velhos que ainda vivem e participam da minha espiritualidade pudessem reconhecer a tradição. Por outro lado iria rever alguns pontos, remover ou absorver outros conceitos, práticas que não comprometessem a origem, a raíz.


Digo isto porque quando adentrei ao mundo virtual da Makumba, me deparei com um cenário complicado; muitas novidades, muita rivalidade, muitas convicções para legítimar narrativas, muita deslegitimação de práticas alheias. E eu estava me contaminando com tudo isso, é muito difícil assistir a dissolução de uma coisa que pra mim está além de religiosa, é memória afetiva. Encontrar o caminho do meio, de equilíbrio e não de insenção é muito difícil...


Há muito tempo deixei de consumir material técnico sobre religiões afro, percebi que na verdade a maioria era sobre práticas pessoais, passei a consumir material histórico, antropológico, sociológico porque meu foco era entender as origens, as transformações.


Ainda que eu tenha a absoluta certeza que nenhum material acadêmico ( a não ser se escrito por quem pratica ) vai substituir a vivência ( tem um texto interessante sobre o assunto, clique aqui para ler ) de religioes que são de experimentação, de toque, de sensações, de emoções, não posso deixar de afirmar que esses materiais trazem muitas resoluções...


Essa encruzilhada me fez buscar informações sobre as mudanças sociais e as transformações nas afro religiões, assunto que já é discutido mas não é procurado porque esbarra em muitas coisas, principalmente na ideia de perpetuação da tradição que pode se transformar numa ditadura. 


Em A Busca da África no Candomblé, Repensando o Sincretismo e Da Minha Folha, fontes que inclusive citei em texto da Revista Makumba, fica muito nítido que não existe pureza na diáspora e possivelmente não existe mais pureza na origem, por mais que seja um incomodo para pessoas que como eu vieram de tradições antigas, é histórico, é uma realidade que não vai cessar, nada é estático, nada vai ser mais como era antes.


Nesta busca sobre transformações, encontrei um artigo chamado " Pureza nagô, (re)africanização, dessincretização ", texto com assuntos bem polêmicos, que mostram que coisas que vivemos hoje se arrastam ao longo da história das religiões afro-brasileiras, desde as disputas por território, a mercantilização religiosa e as sucessivas transformações. As religiões afro estruturadas de hoje não eram assim no passado, a Makumba que eu vivi e tento preservar chegou estruturada pra mim mas na certa teve todo um processo...


É fato que houveram e haverão transformações, releituras, reinvenções e não vamos conseguir conter, o grande problema é quando essas releituras não são orgânicas, são programadas, seletivas e com o propósito de benesses de auto projeção. O problema é quando essas releituras se tornam verdades absolutas, assim como o excesso de tradicionalismo também alimenta absolutismo, cria porta vozes que sem visão panorâmica ( muitas vezes por não terem acesso a esses materiais de pesquisa ) não conseguem no mínimo entender que vivemos num país com uma diversidade afro religiosa que condiz com suas proporções geográficas...


Ainda que muitos ritos, muitos fundamentos conversem mesmo em regiões diferentes, não existe uma única Makumba, existe a Makumba que eu vivi e a Makumba que você viveu ou vive, e não existe certo ou errado se a sua Makumba ou a minha Makumba tem práticas distintas mas não comprometam a origem, não esvaziem estrategicamente rituais, não inferiorizem culturas e crenças, não façam etnocidio transformando ancestrais divinizados em energias sem cor, por exemplo...


Estamos num momento de liberdade e libertação, de muitas transformações simultâneas, não estão acontecendo de forma isolada e isso acaba dando a sensação de velocidade, estamos velozes em tudo e isso não é saudável. As transformações religiosas estão acontecendo no exato momento em que escrevo e que você lê, não temos o poder de interromper e sinceramente nem sei se devemos... Acho na verdade que nosso papel é não deixar a origem morrer, como disse em outro texto: precisamos nos levantar como griôs na preservação do saberes e fazeres.


Não vamos conter as transformações e possivelmente faremos transformações, a grande diferença vai continuar sendo a intenção, quem não viveu uma tradição não tem necessariamente um compromisso com a origem, talvez até use como referência mas não como alicerce. Quem vem de tradição vai viver essa encruzilhada de ou manter a tradição a todo custo mesmo com muito desgaste, ou preservar a tradição usando nova linguagem, nova roupagem sem perder a raíz.


O simbolo Sankofa é exatamente sobre isso: preservar o passado criando um presente maravilhoso pra que o futuro seja incrível.


Hoje o meu terreiro seria contemporâneo sem nunca perder a raiz, minha encruzilhada sustentada por Exu pra que não me perturbe emocionalmente e não tire o raciocínio.



Proibida a reprodução total ou parcial, sem autorização. Lei nº 9610/98

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