M'banda

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  M'banda é uma palavra do Kimbundu, uma língua Bantu, e com alguns significados, pode indicar um coletivo religioso, a/o líder desse coletivo, mas o de uso mais comum é : magia, a arte de curar. No Kimbundu quando as letras M e N precedem outra consoante, elas tem um som de vogais nasaladas, ou seja: em/en, im/ìn, um/un. A palavra M'banda pode ser lida como embanda, imbanda, umbanda ... Oscar Ribas, escritor e etnólogo Angolano, afirma que em Angola, " Umbanda " é um rito de cura, um tipo de medicina natural que envolve a intervenção de espíritos, é a ciência do Kimbanda ( sacerdote, curandeiro ). O historiador Wilson do Nascimento Barbosa, indica a palavra Nblanda para definir práticas religiosas Bantu no sudeste do país. Nblanda estaria muito além de um movimento religioso, seria uma filosofia espiritual mesclada a uma ideologia social na metade do século 19. Aqui M'banda tem exatamente este sentido, uma filosofia de vida que mescla espiritualidade, princípio

O culto e suas ramificações...

Imagem maravilhosa de José Carlos Martinez que ilustrava lindamente a Revista Planeta


Eu cresci lendo a Revista Planeta, na adolescência tive muita curiosidade em aprender mais sobre as religiões afro, achava que só a oralidade do terreiro não bastava... Isso me causou alguns conflitos, em alguns momentos questionei as práticas do terreiro porque em minhas pesquisas não encontrava elementos que fui acostumada a ver no dia a dia da Tenda do Caboclo Lírio, inclusive não lembro por exemplo da minha tia Lenice - que era minha mãe de santo - falar em Zélio de Moraes, em Kardec e me questionava como as pessoas daquela época não conheciam - eu só fui conhecer adulta e através de pesquisa - nomes " importantes " para a religião que praticavam... Até entender que nem tudo está nos livros, a Makumba não é lida, é experimentada! Hoje sigo os ensinamentos que tive lá atrás, honro o conhecimento dos meus ancestrais e a tradição onde nasci.

Mas a Revista Planeta foi minha companheira nessa busca por mais conhecimento, as capas eram lindíssimas, assuntos interessantes, inclusive muitos deles dariam vários debates nos dias atuais...

Ano passado entrei em contato com a direção da revista pra vê se eles reeditavam as edições que falavam sobre as religiões afro, infelizmente me disseram que não existe a possibilidade... Ainda bem que guardo como muito carinhos as minhas edições, transcrevo abaixo um texto da edição especial Candomblé e Umbanda.





" Acompanhando a dispersão dos escravos africanos pelo territóno brasileiro, os ritos africanos se diversificaram, influenciando (e sendo influenciados por) outras religiões e crenças nas áreas em que se estabeleceram. Por esse motivo, é comum encontrarem-se dois ou mais termos para um mesmo culto na prática ( como Xangô, em Recife, e Tambor de Nagô no Maranhão ), ambos validos para os ritos de origem iorubá. Por outro lado, as sínteses feitas com o candomblé original a partir dos ritos indígenas, na Amazônia, e do catolicismo e do espiritismo, presentes especialmente no Centro-Sul, resultaram em variantes bem diversas do modelo básico. No primeiro numero de Planeta, o estudioso Edison Carneiro apresentava resumidamente a localização geográfica e as várias formas que o candomblé assumiu no Brasil. 

"Para efeito de incidência nacional dessa religião, podemos dividir o país em três áreas distintas.

No Nordeste está o candomblé original, hoje limitado a pequeno número de casas de culto - jejes e nagos na Bahia, nagôs no Re- cife, jejes e nagós no Maranhão -, que coexiste com subprodutos já em primciro plano em outras áreas, como os candomblés de Angola e de caboclo. Os batuques de Porto Alegre pertencem, a despeito da distância geográfica, à área do Nordeste.

Centro-Sul: Houve aqui, inicialmente, uma liderança jeje-nago, logo sobrepujada pela de Angola, de onde descende a maioria da popula- ção de cor. As macumbas podem ser consideradas remancscentes dos antigos candomblés cariocas, enquanto a umbanda corresponde à nova influéncia de Angola. Umas e outra, porém, marcham celeremente para o candomblé de caboclo (candomblé onde os Caboclos representam os Orixás), acrescido de tintas locais (os Pretos Velhos, concepções e práticas ocultistas e espiritas) .

Amazônia: Os batuques reconhecem filiação direta com a Casa das Minas e, em menor proporção com a Casa de Nagô do Maranhão. Esta última teria dado nascimento aos cultos chamados babaçuê, agora em franca extinção. Uns e outros resultaram da fusão de crenças e práticas jejes e nagôs, mas, submetidos à poderosa sedução da mítica amazônica, se deixaram envolver pela pajelança - e se aproximam também, como na umbanda carioca, do candomblé de caboclo.

O candomblé tradicional parece condenado. Tudo indica que a forma definitiva, nacional, se alguns dia se apagarem as diferenças regionais, será um candomblé de caboclo que incorpore muitas das crenças e práticas jejes e nagôs e aquelas que a literatura romântica atribuiu a índios e velhos escravos, tudo colorido pelo leque de tradições diversas que compõem o folclore do Brasil ""


O culto e suas ramificações - Revista Planeta 1983



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