M'banda

Imagem
  M'banda é uma palavra do Kimbundu, uma língua Bantu, e com alguns significados, pode indicar um coletivo religioso, a/o líder desse coletivo, mas o de uso mais comum é : magia, a arte de curar. No Kimbundu quando as letras M e N precedem outra consoante, elas tem um som de vogais nasaladas, ou seja: em/en, im/ìn, um/un. A palavra M'banda pode ser lida como embanda, imbanda, umbanda ... Oscar Ribas, escritor e etnólogo Angolano, afirma que em Angola, " Umbanda " é um rito de cura, um tipo de medicina natural que envolve a intervenção de espíritos, é a ciência do Kimbanda ( sacerdote, curandeiro ). O historiador Wilson do Nascimento Barbosa, indica a palavra Nblanda para definir práticas religiosas Bantu no sudeste do país. Nblanda estaria muito além de um movimento religioso, seria uma filosofia espiritual mesclada a uma ideologia social na metade do século 19. Aqui M'banda tem exatamente este sentido, uma filosofia de vida que mescla espiritualidade, princípio

Origem, o mito e o futuro da Makumba

 


Difícil encontrar uma linguagem que não pareça crítica ou mesmo conflito, tô na busca dessa linguagem todos os dias... É muito ruim ver uma coisa que se ama se dissolvendo, se transformando sem critérios, sem compromisso com a história, com a ancestralidade. Mas eu tenho compromisso com a verdade, não posso me silenciar. Por outro lado, não sou e não quero ser uma juíza que aponta, julga e condena no tribunal da web. Meu compromisso é em preservar a Makumba Antiga, os nomes que construíram essa Makumba...


Este texto é uma reflexão, uma sinalização sobre alguns pontos que precisam ficar evidentes.


 Origem


Bom, entre a metade do século 19 e início do século 20, algumas religiões afro se formaram no Rio de Janeiro, todas de origem Bantu com elementos indígenas e posteriormente com elementos católicos, kardecistas, místicos...


Eram chamadas de Kalundu, Cabula e Makumba. A Makumba ficou famosa entre os pesquisadores da época e muitas vezes esse termo virou guarda chuva para todos os ritos afro... 


A Makumba se desenvolveu de acordo com uma sucessão de eventos sociais, desde a chegada dos Bantu até o fim da escravidão, o intercâmbio cultural e assimilação religiosa. Estudos apontam que a Makumba surge do hibridismo cultural e religioso Bantu com influências Yorubás, com a diáspora do nordeste para o sudeste do país, é a partir daí que os Orixás são introduzidos nos ritos Bantu e dá origem a Makumba. Ou seja, a Makumba não tem um marco fundador, não tem um mito de fundação, ela simplesmente aconteceu...


O Mito


No século 20, as religiões afro no sudeste passam por outras transformações para atender questões sociais e políticas, desde a transição rural para urbana, ao interesse da classe média pelos cultos afro, e é esse interesse que vai dar outra roupagem para a Makumba, signos africanos e indígenas são removidos, o cristianismo católico e kardecista se sobrepõem numa higienização que vai de encontro com os interesses da classe média...


Surge um fundador, respingos da colonização que precisa ter um Deus salvador, um herói mítico, a cabeça colonizada precisa de alguém no comando, que dite regras bem nos moldes do invasor...


A África na Umbanda


A estrutura da Umbanda é totalmente Bantu, não tem como negar isso. Os cânticos, os ritmos tocados, o transe com ancestrais para a comunicação é característica Bantu, os pontos riscados, a magia, os conceitos sobre outros mundos, vida e pós vida são Bantu.


Infelizmente a cultura e religiosidade Bantu foram suprimidas no Brasil, estudiosos afirmam que isso aconteceu porque os Yorubás chegaram por último, por isso a cultura e espiritualidade Yorubá são mais frescas, mas hoje temos muitos recursos para esse resgate Bantu, acontece que os próprios Umbandistas dão maior importância a tudo o que é Yorubá ( não quero dizer que não existe importância, mas sinalizar sobre sobreposição de cultura e espiritualidade ), inclusive quando se trata de divindades, hoje existe um foco muito grande em Orixás na Umbanda que não existia anteriormente, pelo ao menos eu não vi ao longo da minha vida religiosa. E esse interesse não é pelo " falangeiro " de Ogun, por exemplo. O interesse é por Orixá nos moldes tradicionais...


Vale lembrar aqui que Orixá é Orixá, e até esse conceito de falangeiro já é uma releitura, mas também é uma característica da Makumba, espíritos se apresentando com nomes de divindades que naturalmente aconteceu por conta do hibridismo religioso, até porque a base da espiritualidade Bantu é o culto aos mortos ( ancestrais )...


Aqui surgem muitos conflitos, desde tentar implantar o culto aos Orixás como cultuados no Candomblé ou Culto Tradicional sem passar pela iniciação, ao ataque dessas religiões tradicionais que se valem da narrativa do mito fundador para deslegimitar o culto aos Orixás na Umbanda.


Resgatar a Umbanda pré mito fundador não significa introduzir elementos, símbolos, ritos e divindades que não existiam anteriormente, por outro lado não temos o poder de limitar onde divindades serão chamadas e atenderão a esse chamado, vejo por exemplo pessoas que rezaram a vida toda pra Orixá na Umbanda e foram sempre atendidas, também vejo outras que rezaram pra Orixá a vida toda na Umbanda, foram sempre atendidas e hoje insistem que Orixá não atende na Umbanda, fico curiosa pra saber quem respondia as rezas desses ...


Pra mim fica nítida a intenção; afastar a Umbanda do que é africano valida o discurso para o interesse dos cultos mais tradicionais, para alguns do Candomblé, por exemplo, é interessante a narrativa do mito de fundação do homem branco espírita...


Sincretismo


Nunca houve uma Makumba não sincrética, pelo contrário, o sincretismo aconteceu inclusive na África Central como estratégia política e militar, muitos Bantu já chegaram aqui convertidos ao cristianismo, e como a base do culto Bantu é a comunicação com espíritos, o kardecismo foi também assimilado exatamente por também ser de comunicação com os mortos.


É claro que é impossível negar toda violência com a imposição da religião cristã matando toda religiosidade africana e indígena. Eu faço parte do grupo anti sincretismo, mas não nego a história e principalmente não violento espaços simbólicos, sejam individuais ou coletivos, lutar contra o sincretismo é uma coisa muito atual e estamos longe de termos um grande número de casas não sincréticas, até porque não é só remover os santos dos congás, é muito mais, inclusive desconstruir conceitos de bem e mal, de gênero, de sexualidade, de caridade, de cosmologia, de mitologia que são respingos cristãos e colonizadores que infelizmente ainda nos rodeiam e assassinam os conceitos ancestrais. Por exemplo: por que buscarmos explicações sobre a reencarnação no espiritismo se os Bantu já falavam em reencarnação antes de Kardec?


O Espiritismo rejeita magia, rejeita rituais e sempre deixa bem explícito que as religiões afro-indígenas não são espíritas. E não são mesmo! 

Sào tradições ancestrais muito mais antigas e muito bem organizadas. Não somos espíritas!


Umbandização


Nesses dois últimos anos vi uma guerra sobre o que é e o que não é Umbanda, mas será que é possível concluir isso!?


Vivemos num país continental, a Makumba foi levada para outras regiões e assimilou outros traços.


Umbanda hoje é um termo guarda chuva, a Umbanda do sudeste é diferente da Umbanda do nordeste, aliás no sudeste mesmo existe uma variação enorme do que é chamado de Umbanda.


Sem contar que outras tradições passaram a se chamar de Umbanda para que houvesse um encaixe ou aceitação no meio religioso que insiste em categorizar, encaixar tudo em Umbanda ou Candomblé.


A Umbandização está acontecendo de forma intensa, no norte do país, os cultos tradicionais estão se chamando de Umbanda e inclusive usando a narrativa do mito de fundação...


E ainda temos um outro problema, a idéia de que a Umbanda precisa ser temperada porque " sozinha não é eficaz ", e é preciso jogar um sal pra temperar, trazendo elementos de outros cultos pra validar a eficácia da Umbanda. Quem nunca experimentou de verdade a Makumba de Preta Velha curando feridas, de Caboclo curando doenças graves, de Exús prometendo e cumprindo caminhos abertos e proteção; esses com certeza precisam de outros elementos pra validar suas práticas...


O futuro da Makumba/Umbanda


Já me conscientizei que não vou conseguir resgatar o que vivi, meus iniciadores ancestralizaram, minha vó já está muito idosa e com demência senil, a maioria dos meus irmãos de religião também ancestralizaram e outra parte foi para o Candomblé, provavelmente minha tradição se encerra em mim, até porque não tenho pretensões quanto a casa aberta, sacerdócio...


E sinceramente não vejo interesse em resgate dessa Makumba Antiga, vejo sim várias releituras ( e acho releituras muito válidas desde que sejam feitas de forma honesta ) através de pesquisa e não de vivência. Conhecimento e vivência são coisas distintas, Makumba não se aprende em cursos e livros, é preciso viver, mesmo tendo muito conteúdo teórico...


A Makumba ainda é viva no Rio de Janeiro, mesmo que algumas casas se chamem de Umbanda, mas essas casas estão nos guetos, nas comunidades e os teóricos da Makumba descartam essa realidade, conteúdos de internet nem chegam nesses ambientes e nunca ouvi alguém dizer por exemplo que fez trabalho de campo nessa casas antigas, talvez o período pandêmico seja a desculpa, mas daqui pra frente, com a pandemia controlada, nada impede esse tipo de pesquisa.


A pergunta é: Será que a Umbanda classista, seletiva, que busca projeção pessoal, que virou produto, do Deus algoritmo, está interessada nessas casas?



Proibida a reprodução total ou parcial, sem autorização. Lei nº 9610/98

Postagens mais visitadas deste blog

M'banda

Makumba Karióka - A origem, o mito e a encruzilhada