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Mostrando postagens com o rótulo Makumba

M'banda

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  M'banda é uma palavra do Kimbundu, uma língua Bantu, e com alguns significados, pode indicar um coletivo religioso, a/o líder desse coletivo, mas o de uso mais comum é : magia, a arte de curar. No Kimbundu quando as letras M e N precedem outra consoante, elas tem um som de vogais nasaladas, ou seja: em/en, im/ìn, um/un. A palavra M'banda pode ser lida como embanda, imbanda, umbanda ... Oscar Ribas, escritor e etnólogo Angolano, afirma que em Angola, " Umbanda " é um rito de cura, um tipo de medicina natural que envolve a intervenção de espíritos, é a ciência do Kimbanda ( sacerdote, curandeiro ). O historiador Wilson do Nascimento Barbosa, indica a palavra Nblanda para definir práticas religiosas Bantu no sudeste do país. Nblanda estaria muito além de um movimento religioso, seria uma filosofia espiritual mesclada a uma ideologia social na metade do século 19. Aqui M'banda tem exatamente este sentido, uma filosofia de vida que mescla espiritualidade, princípio

Makumba Karióka - A origem, o mito e a encruzilhada

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  O rigem Para entender a origem da Makumba , é preciso entender primeiro a cultura ancestral do Rio de Janeiro e todas as suas transformações ao longo da história, porque a própria história coloca este estado como ponto de origem da Makumba/Umbanda e o blog trata exatamente sobre os cultos afro cariocas. O Rio de Janeiro é Tupinambá acima de qualquer coisa. Os Tupinambás foram os primeiros habitantes do estado, primeiros a ter contato com os portugueses e com os bantu . E ainda que não exista uma relação direta com a Makumba ou esta relação não seja aprofundada, a magia, a espiritualidade indígena não podem ser descartadas na formação das religiões afro-brasileiras. Os bantu entenderam isso perfeitamente, tanto que absorveram os ancestrais indígenas em suas práticas espirituais, se tornaram chefes de terreiros porque são os ancestrais da terra, já estavam aqui, já eram cultuados antes da colonização. Karióka Acredita-se que os Tupinambás se dispersam através dos rios Paraguai e Amaz

M'banda - Terra de Mortos

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  As religiões afro nem sempre tiveram a estrutura que conhecemos hoje, ela aconteceu ao longo dos séculos de ressignificação das religiões tradicionais na diáspora, voltar no tempo nos dá muitas pistas de como eram os cultos em seus primórdios no Brasil e como foram se adaptando de acordo eventos sociais, políticos, etc . Os bantu foram os primeiros a chegar aqui e não trouxeram uma religião como conhecemos hoje e passou ser uma exigência, não tinham templos, os cultos eram ao ar livre, no meio da mata em louvor aos ancestrais, era o Nkalundu , Nkilundu , ou ainda o Ilundu ... As crenças bantu eram bem centradas no culto aos mortos, alguns povos tinham ideias de divindades, mas o centro do culto eram os ancestrais, e foi assim que se desenvolveram vários cultos ou religiões com estruturas muitos simples e invocação de espíritos... O Candomblé surge no Rio de Janeiro no final do século 19, ou seja, já existiam outras formas afro religiosas nessa região, então é impossível que o Candom

As 7 Linhas...

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Antes de adentrar ao assunto, bom sinalizar que o blog M'banda tem como princípio incentivar, fomentar a pesquisa por fatos históricos e naturalmente questionar a centralização de assuntos que envolvem a M'banda / Makumba . Não é sobre as pessoas deixarem suas práticas, mas questionarem e com isso buscarem maior conhecimento. Eu nunca consegui entender as 7 linhas de Umbanda , até porque existem várias versões. A primeira menção de 7 linhas que temos conhecimento acontece na década de 20 com Leal de Souza, até então nem Zélio de Moraes falava nessa subdivisão... Essa subdivisão em linha é recente e de diáspora, em Cuba também se fala nas 7 potências africanas, mas em origem essas linhas não existem, vms encontrar no máximo alguns agrupamentos de divindades mas sem encaixotar, como os Orixás Funfum, por exemplo.  Eu até acho o conceito de 7 linhas bem poético, mas ao mesmo tempo vejo como a necessidade ocidental e moderna de sistematizar tudo e no meu entendimento sistematizar d

A Encruzilhada...

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  A cada dia eu entendo que focar num ponto de pesquisa e se fechar, não gera, não movimenta conhecimento, pelo contrário, engessa. Eu vivo numa verdadeira encruzilhada desde que voltei a me envolver com o meio afro religioso, parte de mim é nostálgica e apegada aos ritos antigos, aos meus mais velhos. Outra parte não pode e nem deve fechar os olhos para todas as transformações sociais que refletem inclusive nas religiões, nas espiritualidades. Dia desses conversava com um amigo sobre estrutura de terreiro, eu não tinha até ontem uma estrutura pra que hoje eu formasse uma comunidade religiosa, exatamente por causa da encruzilhada que eu vivo, mas a partir de ontem, entendi que essa encruzilhada não precisa me perturbar, ela é na verdade o caminho. Então hoje se eu montasse meu terreiro, manteria os ritos internos antigos, o legado dos meus ancestrais para que os meus mais velhos que ainda vivem e participam da minha espiritualidade pudessem reconhecer a tradição. Por outro lado iria re

" A Umbanda tem o corpo, o Espiritismo tem a cabeça "

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  " A Umbanda tem o corpo, o Espiritismo tem a cabeça " Eu li esta frase na adolescência em uma revista de " Umbanda " que circulava na época e nunca mais esqueci... Nos dois terreiros chamados de Umbanda que frequentei, os ensinamentos eram totalmente orais, não existia material didático, livros. As pessoas daquela época ou sabiam pouco ou não sabiam ler e escrever, mas elas sabiam muito como fazer Makumba, e não tinham aprendido em livros, principalmente em livros que condenam magia e formatam espiritualidade... Confesso que sentia falta de um material de estudo e fui buscar esse conhecimento fora do terreiro, lembro que ia para uma biblioteca que tinha na Administração Regional aqui do meu bairro pra tentar encontrar livros sobre Makumba, encontrei pouca coisa, mas encontrei livros de história e outros com curiosidades interessantes...  Comprava tudo o que aparecia sobre Umbanda. Estudar a religião começou a criar conflitos em mim, eu não reconheçia nos livros e

Aborixá

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  Quem pode cultuar Orixá? Todos podem, desde que exista um entendimento sobre o que é um culto devocional e o que é um culto sacerdotal/religioso, e não exista um colonialismo espiritual, ou seja, tentar moldar cultos e espiritualidades ancestrais pra atender critérios que inferiorizam, esvaziam ou tentam dar um ar evoluído numa perspectiva colonial... Aliás, temos um respingo grandioso da colonização nas religiões afro-diaspóricas, isso inclui crenças espirituais/religiosas e mesmo comportamentos... Tem no mínimo 200 anos que Orixás são cultuados no Brasil, isso o que podemos contabilizar com registros históricos, mas não temos alcance do que aconteceu antes... É de se entender que naturalmente o culto aos Orixás passou por inúmeras transformações e adaptações de acordo com eventos sociais e políticos, nada era tão formatado como nos dias atuais. A discussão sobre onde existe ou não Orixá tá sempre atrelada aos extremos Umbanda e Candomblé, e aqui entra conceitos que já mencionei em

Origem, o mito e o futuro da Makumba

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  Difícil encontrar uma linguagem que não pareça crítica ou mesmo conflito, tô na busca dessa linguagem todos os dias... É muito ruim ver uma coisa que se ama se dissolvendo, se transformando sem critérios, sem compromisso com a história, com a ancestralidade. Mas eu tenho compromisso com a verdade, não posso me silenciar. Por outro lado, não sou e não quero ser uma juíza que aponta, julga e condena no tribunal da web. Meu compromisso é em preservar a Makumba Antiga, os nomes que construíram essa Makumba... Este texto é uma reflexão, uma sinalização sobre alguns pontos que precisam ficar evidentes.   Origem Bom, entre a metade do século 19 e início do século 20, algumas religiões afro se formaram no Rio de Janeiro, todas de origem Bantu com elementos indígenas e posteriormente com elementos católicos, kardecistas, místicos... Eram chamadas de Kalundu , Cabula e Makumba. A Makumba ficou famosa entre os pesquisadores da época e muitas vezes esse termo virou guarda chuva para todos os r

Simbolismo das cores na África e na diáspora

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  Cor é linguagem, e vai além de ser só estética, tem um grande poder simbólico cultural e religioso. Cada cor assume características diversas dependendo da cultura, e apesar de hoje reconhecermos vermelho, azul e amarelo como cores primárias, para a maioria dos povos africanos as cores primárias eram branco, preto e vermelho. Eram as cores extraídas da natureza e associadas a eventos naturais ou com atributos do dia a dia. Nem todos esses povos concordavam com o simbolismo dessas cores, mas a linguagem se interconectava... Vermelho: cor do sangue, da força, da coragem, tons de laranja eram entendidos como vermelho... Preto: cor da terra, do oculto, da noite, da magia, azuis, verdes e cinza escuro eram entendidos com preto Branco: cor dos ancestrais, dos ossos, do sêmen, do nascer do sol, cinza claro e amarelo eram entendidos como branco. Entre os Yorubás, estas cores fazem parte da vida religiosa. Para os Igbo, a cor branca é símbolo da pureza, hospitalidade, está ligada aos ritos ini

O culto e suas ramificações...

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Imagem maravilhosa de José Carlos Martinez que ilustrava lindamente a Revista Planeta Eu cresci lendo a Revista Planeta, na adolescência tive muita curiosidade em aprender mais sobre as religiões afro, achava que só a oralidade do terreiro não bastava... Isso me causou alguns conflitos, em alguns momentos questionei as práticas do terreiro porque em minhas pesquisas não encontrava elementos que fui acostumada a ver no dia a dia da Tenda do Caboclo Lírio, inclusive não lembro por exemplo da minha tia Lenice - que era minha mãe de santo - falar em Zélio de Moraes, em Kardec e me questionava como as pessoas daquela época não conheciam - eu só fui conhecer adulta e através de pesquisa - nomes " importantes " para a religião que praticavam... Até entender que nem tudo está nos livros, a Makumba não é lida, é experimentada! Hoje sigo os ensinamentos que tive lá atrás, honro o conhecimento dos meus ancestrais e a tradição onde nasci. Mas a Revista Planeta foi minha companheira ness

Kufwa

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  A essência da filosofia e espíritualidade Bantu era a energia vital, o vigor. Os rituais, as orações e a conexão com os Ancestrais e os espíritos da natureza eram o veículo para potencializar essa energia de vida. Eles acreditavam que essa potencialização energética em vida, garantia também uma potencialização no pós morte... Pensar na línha de Kalunga como um espelho, uma boa vida = uma boa morte... Para eles todo tipo de infortúnio era causado por influência de espíritos com a intenção de reduzir a energia vital que poderia vir através de aborrecimentos, perdas, brigas, doenças. Eu lembro muito de entidades de Umbanda falando " kufar ", " Kufou ", e nós usamos essas palavras como sinônimo de morte, aliás, queremos traduzir tudo de forma literal: kufwa = morte Mas as palavras são imbuidas de signos, conceitos que muitas vezes só fazem sentido para os povos originários dessas palavras, dessas linguagens. Kufwa não é a morte literal, é a subtração da energia vi

Makumba não é lida, não é contada, é vivida...

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  Conhecimento e vivência são coisas distintas, e isso no meio afro religioso em um peso grande... Acho uma maravilha que hoje com o advento da internet tenhamos acesso a informação, mas isso nem de longe significa que conhecimento teórico, formação acadêmica substitui a essência da Makumba que é a experimentação.  O verdadeiro conhecimento nas espiritualidades/religiões ancestrais só acontece através da experiência vivida... Nos últimos anos vi o crescimento de um movimento que descarta a vivência em nome do conhecimento teórico valendo-se de títulos acadêmicos, longe de mim descartar o meio, também uso material acadêmico em minhas pesquisas e estudos, acho muito válido e precioso, mas não podemos cair na bobagem de repetir o que foi feito lá atrás quando cientistas da religião por mais que tenham deixado material com informações interessantes, também criaram esse movimento que ressoa até hoje; deslegitimaram práticas, usaram linguagem preconceituosa, sobreporam culturas e espiritual

Hibridismo religioso

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  Apesar de ter me originado de uma casa de Umbanda com o Congá construído com inúmeras imagens de santos católicos, eu nunca tive uma boa relação com o sincretismo. Primeiro, porque a ideia de Deus nos moldes abraâmicos me incomodava muito, eu nunca consegui adorar um deus egocêntrico, violento, vingativo... Segundo, porque não conseguia associar divindades africanas com imagem de santos; eu não conseguia, por exemplo, pensar na guerreira Oyá, mãe de muitos filhos e suas aventuras amorosas com Xangô, com Ogum e associar essa potência com Santa Bárbara. Meu contato com o Candomblé me deu maior abertura para não usar o sincretismo, mas foi o meu contato por muito anos com o paganismo que, definitivamente, me deu base para não usar o sincretismo em minhas práticas. Mas como pesquisadora eu não posso negar fatos e centralizar conteúdo me limitando a achismos ou  minhas preferências espirituais/religiosas, por isso esse texto leva, sim, em consideração minhas convicções, mas foi criado pri